As pessoa sempre - e para sempre! - certinhas provocam-me valentes bocejos. As que nunca fizeram nenhum disparate, não têm nem nunca tiveram nenhum mau hábito, as que nunca fizeram a coisa errada em vez da coisa certa. As que nunca foram arriscadas, inconscientes, as que se acomodam, deixam a vida passar por elas enquanto lhe acenam, do mesmo sítio de onde nunca saem. Aquelas que se contentam sempre com o que têm, mesmo que pouco ou medíocre, porque consideram que "já é uma sorte" ter seja o que for. As pessoas submissas, passivas, que não protestam mesmo quando se sentem injustiçadas, que não são capazes de mandar um ou dois berros, mesmo quando têm razão. As que não arriscam falar com desconhecidos, voltar para casa fora de horas ou perder horas de sono, as que desconfiam de tudo o que lhes é estranho. As que não arriscam, não arriscam arriscar, ser postas fora do seu círculo de segurança, da sua zona de conforto, as que não arriscam ser surpreendidas, não arriscam poder ser repreendidas ou postas em causa. As que fazem sempre tudo bem, nunca lutaram pela pessoa errada de quem gostavam, por ser a pessoa errada As que nunca arriscaram o certo pelo incerto e que foram, toda a vida, modelos de perfeição e responsabilidade em tudo o que fazem e em todos os papéis que desempenham. E vivem como bonecas de porcelana. (*)
(*) Sempre odiei bonecas de porcelana, que medo. Tão brancas e com aqueles olhos assustadores que parece que nos seguem! E nem serviam para brincar porque, à mínima coisa, partiam-se!