27 de julho de 2011

não encontrei título para isto.

As igrejas e os cultos religiosos - católicos, pelo menos, que não conheço mais nenhuns - assustam-me. As igrejas são demasiado grandes, demasiado frias, demasiado impessoais. O eco que faz lá dentro intimida. As figuras de santos são feias, frias e assustadoras e - parece! - a qualquer momento vão começar a seguir-nos com o olhar. Acho tudo perfeitamente preparado para, a qualquer momento, ouvir bater uma claquete dum filme de terror. Não me transmite nenhuma sensação de paz, de harmonia, de amor, de comunicação, de partilha. Os rituais não me apaziguam (apaziguam alguém?), transtornam-me.

O meu avô morreu há quatro meses. Desde então - e exclusivamente por vontade da minha avó, última da última geração crente da minha família - tem sido um sem fim de rituais aos quais não me posso escapar por causa dela. Logo naqueles dias seguintes foi tudo de fugir: primeiro o velório, depois o velório outra vez no dia seguinte. Felizmente, não tinha grande (hum, nenhuma?) experiência em velórios. Ter o meu avô à minha frente, morto, gelado, arroxeado, olhos azuis baços, impecavelmente penteado e vestido com o seu fato preferido... A minha avó aos gritos abraçada a ele. Pessoas a entrar, pessoas a sair, pessoas que eu nem sabia quem eram a levantarem-lhe o pano para lhe ver a cara. Pareceu-me tudo tão anormal, tão desnecessário. Pareceu-me tudo uma profanação tão grande. Depois a missa do sétimo dia, a do primeiro mês, segundo mês, terceiro, quarto mês - and so on!. Por mim, mais do que basta. O único motivo pelo qual me arrasto todos os meses até à maldita missa é o de fazer companhia à minha avó. Porque aquilo, para mim, vale zero. É até uma grande merda, pra dizer a verdade. Não ajuda as pessoas a sofrer mais ou a sofrer menos, a sentir mais ou menos a ausência, não ajuda no luto. Nem sequer à minha avó, que é a única não ateia/não agnóstica, ajuda. Faz só com que ela passe a missa a chorar baixinho. Ou menos baixinho, quando não consegue abafar. E o resto do dia também.


26 comentários:

joana disse...

Penso o mesmo.
E espero nunca ter que ver uma pessoa num caixão. Faz-me impressão aquela sensação de cubículo que se vai fechar...
Nem me refiro ao morto em si, mas sim ao ambiente que o rodeia. Para mim não faz sentido.

Inês disse...

Concordo, acho completamente desnecessário. Quando o meu avô morreu recusei-me a vê-lo morto, gosto de me lembrar da última vez que o vi, vivo, alegre, com cor. E sei que fiz a melhor decisão quando ouvi a minha prima a dizer que a última imagem que tem do avô é azul e inanimado. Acho um horror, não percebo porque se faz e qual o interesse de olhar para alguém que não só não está ali como infelizmente nunca mais vai estar. É mesmo essa a última imagem que queremos guardar?

Sofia disse...

Arrepiei-me ao ler-te...
A verdade é que ha coisas, tradições ou imposições (sei la como lhes chamar) nas religiões que são pura e simplesmente uma tortura para os familiares!
Achei essa descrição das pessoas a levantarem-lhe o pano da cara o expoente da estupidez humana! Essas pessoas, que nem sequer são ligadas à pessoa que faleceu, têm uma falta de noção infindavel!!! Nem tenho palavras para expressar tamanha falta de sensibilidade!
E o pior é que é a religião que permite isso! A mesma que supostamente deveria dar paz e proteção!

Jedi Master Atomic disse...

Há que respeitar as crenças dos outros, mas que faz muita impressão, lá isso faz. Eu só fui a 2 funerais de familiares próximos porque estavam lá pessoas que queriam que eu estivesse ao lado delas.

Mas como sou agnóstico, a mim não me diz nada. E quando me for, quero ser cremado e que aproveitem as cinzas para fazer um cigarro de enrolar...LOL

Cat disse...

joana, pois, é como se a morte por si não fosse má o suficiente, parece que tudo o que a tradição implica só torna tudo ainda pior e mais macabro.

Inês, definitivamente, não é a última imagem que queremos guardar!

Sofia, eu também nem queria acreditar. A primeira pessoa que vi fazer isso, fiquei do tipo "então ninguém vai lá?!". Mas, pelos vistos, é o normal e é o que costuma acontecer nos velórios. Enfim.. :/

Jedi Master Atomic, eu respeito as crenças dos outros. Tanto respeito que tenho estado sempre lá porque, apesar de a mim não me dizer nada, sei que para ela é importante a minha/nossa presença. Jedi fumado? xD

MarcoLino disse...

Serve para manter os níveis de sofrimento bem lá no alto, já que para a igreja o sofrimento é o caminho para o reino dos céus.

Red disse...

custou-me horrores estar uma semana à espera que o corpo do meu irmão chegasse ao pé da família, depois de ele ter morrido num acidente em Espanha. Custou-me 30 raios sabê-lo lá, sozinho (sim, eu sei que ele estava morto e numa arca frigorífica qualquer do IML deles), o desespero de não poder ir lá - ou de não ir lá fazer nada, que não nos deixariam passar da porta de entrada (e mesmo que deixassem, o que raio íamos para lá fazer?) - durante 8 longos dias, mesmo sabendo que ele vinha - ele certamente viria, mais dia menos dia, e a gente sabia disso, não era propriamente a dúvida crescente. Não estava em sofrimento por não saber dele ou assim; estava por não o ter perto de mim.
Não sou propriamente uma católica praticante, que não sou; não ligo às missas, vou acompanhar a famelga. Para mim as missas são desnecessárias, mas também não me fazem lembrar mais do que me lembraria noutro dia qualquer. São muito úteis para a minha mãe ou para a minha avó, que acreditam piamente que lhe estão a iluminar o caminho num céu qualquer. Eu já não vou nessa onda. Mas não me imagino - ou até imagino e não gosto mesmo nada - a não ter tido o velório do meu irmão. Sim, foram dois dias de sofrimento intenso, a começar em ir buscar um corpo dentro de uma caixa ao aeroporto e a acabar no nada que há depois de um funeral, depois de toda a gente ir embora para suas casas (o vazio que fica, raios). É que nem é uma questão de crença; àparte a crença, para mim fez todo o sentido.
Claro que não deixa de ser uma falta de respeito o que as pessoas fazem, as conversas de quintal que têm dentro do velório, as figuras, etc etc - mas ei, não acho que isso seja do ritual em si. Isso é das pessoas mesmo. Figuras tristes e falta de respeito há em todo o lado. Tal como há pessoas que levantam o pano para verem o morto num velório, há pessoas que param ao pé de um acidente só mesmo para ver e até tirar fotografias. É aquilo a que se chama curiosidade mórbida e que faz parte.
Em dois dias mal arredei pé dali. Se não o tivesse feito iria arrepender-me para a vida. E porquê? Sei lá, há coisas que não se explicam. Fez parte essencial do início do meu processo de luto. E já passou um ano e eu não me lembro do meu irmão morto. Vi, vi bastante, vi muitas vezes, mas é preciso pensar especificamente nisso para me lembrar dessa imagem. Estive dois dias no velório e a imagem que tenho dele continua a ser a imagem dele vivo, alegre e animado como sempre. O resto já lá vai – e foi bom para isso.

Red disse...

eish, estiquei-me tanto!! :S sorry!

Addle disse...

A mim faz-me confusão entrar em igrejas e tenho amesma opinião que tu em relação aos santos. Quando o meu avô morreu em 2009, a minha avó fez exactamente a mesma coisa que a tua - uma carrada de missas. Mas a partir do primeiro ano eu deixei de ir e agora só vou quando é o "aniversário da morte". Eu adorava o meu avô, mas acho que não é com missas e com o padre a dizer o nome dele de mês a mês que vou sentir menos a falta dele.

The Love Coach disse...

Querida Cat

Sabendo o quanto gostas de saber e conhecer, recomendo-te vivamente a ler o livro "O Livro Tibetano da Vida e da Morte" de Sogyal Rinpoche.

O próximo funeral vai correr-te muito melhor.

Descansem em paz :)
The Love Coach

José Piçarra disse...

Acabam por ser questões muito pessoais para quem cá fica. A tua avó é de uma geração bem anterior à nossa, ainda de um tempo (quiçá, de um lugar) em que as pessoas se agarravam à Igreja, qualquer que fosse o motivo. Fazes o teu papel ao estar lá para ela, e acredita que isso vale muito mais do que dizer-se que se acredita em Deus e ir à missa todas as semanas, mas não estar lá para os seus.

Eu sou suspeito, porque gosto de arte sacra, e de religião (-ões) no geral, e a mim uma igreja transmite-me paz. E embora te faça impressão, não é por ti que lá vais, é pela tua avó. Pensa positivo!

Ana disse...

Aconteceu-me o mesmo com o meu tio há relativamente pouco tempo. O que me chocou ainda mais, são aquelas pessoas que não conhecem o falecido de lado nenhum e mesmo assim vão enfiar o nariz no velório como se aquilo fosse uma ida ao café! Chocante.

S* disse...

É muito doloroso, não percebo porque querem viver isso. E o velório de caixão aberto é meio macabro.

Hermione disse...

acho que ser crente não tem na da a ver com rituais. eu acredito em Deus, tenho a minha fé, e no entanto também não concordo com muitas das coisas que a igreja advoga, acho que a ideia da missa está totalmente distorcida e esses rituais após a morte, então, nem falo. mas tenho a minha fé, à minha maneira, e isso é q importa.

DC disse...

Supostamente o "sagrado", e tudo o que o envolve, deveria incutir paz nos crentes... E provavelmente incute, mas eu (tal como tu) não sentimos isso, por não sermos crentes.

Cat disse...

MarcoLino, aah então é isso!

Red, e eu queria dizer tanta coisa e sinto que não vou conseguir dizer nada de jeito :/ A tua situação é ainda mais especial. Ou inesperada, pelo menos, nem imagino como tenha sido :/ O meu processo inicial de luto foi desde que soube a notícia até o ver. Depois disso, o velório foi só um "espero que isto passe rápido, espero que isto passe rápido, espero que isto passe rápido". Não tem a ver com ter estado lá ou não - sabia que "tinha" de estar - mas, se eu pudesse escolher existir ou não velório, ter ou não o corpo dele ali dois dias exposto num caixão aberto (independentemente das atitudes das pessoas), certamente escolheria que isso não tivesse de existir. Um beijinho.

Addle, eu também não sei quanto tempo mais me aguento :/

The Love Coach, quando tiver novamente tempo para ler alguma coisa que não sejam livros técnicos, lerei. [ Não se deseja um "próximo" funeral a ninguém, nem que seja para se desejar um melhor :P ]

José Piçarra, a sério, uma igreja transmite-te paz? Sem acreditares em Deus? Isso é intrigante!

Ana, eu nunca pensei que fosse assim. Mas só me apetecia correr uma boa parte das pessoas que estavam lá ao pontapé.

S*, é completamente! :/

Hermione, pois, talvez, não sei bem... Estas coisas dão todas muito que pensar.

DC, pelo que comentaram alguns crentes parece mais complicado do que isso, afinal.

The Love Coach disse...

Cat: Deseja-se sim... é só ultrapassar um bocadinho o medo da morte. É só uma perspectiva diferente.

"Don't take life so serious, you won't live through it". :)

Abraço,
The Love Coach

...Ju... disse...

olha, não sei bem como, mas parece que é um processo que reconforta e sossega algumas das pessoas que estão a sofrer.
Só passei por isso uma vez, até ver... e a mim, não ajudou... ou pelo menos não tenho experiência de vida suficiente para achar que ajudou! não sei :/

Anaa disse...

concordo totalmente contigo. Apesar de ser crente - e de toda a minha familia ser um tanto ou quanto fanatica pela religiao - tambem acho que a igreja e as celebraçoes sao demasiado aborrecidas, impessoais e com imeeeeensa coisa desnecessaria. Normalmente as pessoas mais velhas estao habituadas a esta forma de celebrar as missas mas os mais jovens costumam juntar-se em grupos religiosos de jovens ou ir a missas onde os padres sejam mais novos - dentro dos possiveis - porque realmente a maioria das missas nao se aguenta.

José Piçarra disse...

Cat: eu pessoalmente acredito em Deus, mas não é bem por isso que uma igreja me transmite paz... ou algo parecido. Isto se calhar vai dar em post lá no meu blog, agora fiquei cheio de ideias para partilhar a este respeito! :)

Cat disse...

The Love Coach, não nego mas desconfio ;) Um beijinho.

...Ju..., se calhar é falta de experiência de vida minha também. Não sei.

Anaa, é bom saber que as gerações mais novas estão, religiosamente, a evoluir nalgum sentido :)

José Piçarra, ah, okay! Só depreendi que não acreditavas porque falaste em "religiões" ;) Força, é uma tema beeeem vasto! **

Liana Andra Marques disse...

Eu podia assinar por baixo. Odeio as missas. Odeio ir ao cemitério. A minha avó não vê as coisas de outro modo. Tem de haver missa. Tem de se enfeitar o cemitério. Eu sou católica. Praticamente. Mas mesmo assim... Eu podia assinar por baixo deste texto. Nem os meses trocava. 4. Parece que o vi ontem. Os olhos tão azuis, escondidos, fechados. O rosto que tantas vezes me sorriu, inchado.
Estas cerimónias, costumes... Não diminuem a dor...
O meu avô...
O meu avôzinho...

Lady Me disse...

Concordo plenamente. A minha família é toda ela muito crente. Aliás, eu, o meu irmão e o meu pai somos os únicos de um universo de mais de 100 pessoas que não vamos à missa. Só ponho os pés na igreja quando vou a casamentos. É muito desnecessário fazer essas coisas dos funerais. Nunca fui a nenhum porque não consigo ir a funerais, mas já fui a missas de 7º dia e custou-me bastante estar lá enfiada. Pelo menos a tua mãe não te chateia à conta disso ;) às vezes é uma seca aturar a minha com as ladainhas de não saber como vivemos sem a igreja na nossa vida.

Red disse...

bem, eu não gosto de velórios alheios. até concordo que sejam ligeiramente macabros. sei lá, vou para ali fazer o quê. e isso é porque até sou crente, mas pouco, por isso aquilo não me faz sentido. mas compreendo (e aplica-se a mim) que a família precise deles, mesmo eu sem contar com as crenças todas à volta daquilo. funciona tipo ritual de despedida. não sei explicar. mas estive a pensar e é isso, eu também não aprecio propriamente velórios. só não os trocava nem os omitia se pudesse no caso dos meus mais próximos, que em 3 anos foram 3. mas esta postura também tem a ver com o facto de que eu funciono meio abstractamente e a morte não me faz confusão nenhuma, por mais revoltada ou triste ou surpreendida que tenha sido, pelo que eu não tenho imagem deles mortos. como essa imagem não ficou, talvez seja por isso que eu tenho um conceito diferente do processo, e para mim foi necessário, serviu para ter consciência da coisa. ainda que não tenha sido nada fácil. mas claro, se não foi f+acil para mim que precisava daquilo, então para alguém que não veja sentido na coisa ou quem não goste daquela imagem ou não a consiga encaixar é absolutamente mórbido. e desnecessário.

pensativa disse...

O caixão aberto é de arrepiar!! Compreendo que os familiares mais chegados queiram despedir-se mas mesmo assim acho que nunca seria capaz de ver alguem muito proximo depois de morto! Infelizmente já fui a alguns funerais e uma coisa que me tira absolutamente do sério são as pessoas a cuscuvilhar quem é, quem não é, chora muito, chora pouco etc etc! E os telemóveis a tocar durante o velório!?! uma vergonha!! Vivo numa cidade em que desde que me recordo a igreja dos velórios era no centro da cidade, no entanto à alguns anos mudou para um pouco mais longe acreditem e está provado com mumeros que os funerais deixram de ter tantos "espectadores"!! A verdade é que as pessoas passavam, viam muita gente e lá iam no "embrulho" só porque ia mt gente a acompanhar !! Palavras para quê!?!?!

Sofia disse...

É por estas e por outras que eu me recuso a ser enterrada. Para mim, queima-se tudo e espalha-se ao sabor do vento, pronto. Ninguém devia ter de ver ninguém morto. É horrível. No fundo, as recordações que devem ficar são as boas, são os sorrisos, os momentos, as palavras. Não é um corpo desprovido de vida e que em nada é parecido ao que estávamos habituados - não devia ser essa a nossa última recordação... (mas és uma querida por fazeres companhia à tua avó :) )